Dra. Mônica França

Pé torto congênito

Imagine receber seu bebê nos braços e perceber que os pezinhos tão esperados estão voltados para dentro e para baixo. Essa cena pode assustar muitas famílias, mas a boa notícia é que existe diagnóstico precoce, tratamento eficaz e ótimos resultados a longo prazo. O nome dessa condição é Pé Torto Congênito (PTC) — uma das deformidades ortopédicas mais comuns da infância.

Em alguns casos, o PTC pode ser suspeitado ainda durante a gestação, por meio do ultrassom morfológico, que permite visualizar a posição anormal dos pés do bebê. No entanto, é importante lembrar que a confirmação definitiva só acontece após o nascimento, com uma avaliação cuidadosa feita pelo ortopedista pediátrico.

O PTC é uma alteração no desenvolvimento dos pés que afeta ossos, músculos, tendões e ligamentos, fazendo com que o pé do bebê assuma uma posição anormal. Os pezinhos parecem estar virados para baixo e para dentro, como se estivessem “torcidos”. Em muitos casos, o bebê nasce com os dois pés comprometidos (forma bilateral), e a condição é mais frequente em meninos, afetando cerca de 1 a cada 1.000 recém-nascidos.

É importante destacar que o Pé Torto Congênito não é uma simples alteração postural. Diferente do chamado pé torto posicional — que se corrige sozinho com o crescimento — o PTC é uma deformidade estrutural, com encurtamento e rigidez em tendões e ligamentos, e precisa de tratamento especializado para evitar limitações no futuro.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é clínico, ou seja, feito por meio do exame físico ao nascimento, geralmente pelo pediatra ou ortopedista pediátrico. Nenhum exame de imagem (como raio-X ou ultrassom) é necessário para confirmar.

Durante a gestação, o ultrassom morfológico pode sugerir a presença de PTC, mas a confirmação só acontece após o nascimento.

O Pé Torto Congênito é caracterizado por um conjunto de quatro alterações estruturais nos pés do bebê. Esses componentes aparecem juntos e tornam o diagnóstico muito evidente logo ao nascimento:

Cavo

O arco da planta do pé é mais acentuado que o normal, o que faz com que o pé pareça “encurvado”. Esse aumento do arco ocorre por uma tensão anormal nos músculos e tendões da planta do pé.

Aduto

A parte da frente do pé (antepé) está desviada para dentro, como se os dedos estivessem apontando para o centro do corpo. É como se o pé estivesse “abraçando” o outro, dificultando o apoio adequado.

Varo

O calcanhar também está virado para dentro, contribuindo para o desvio geral do pé. Isso altera o eixo normal do pé e interfere na forma como a criança irá pisar futuramente, se não houver tratamento.

Equino

O pé está voltado para baixo, como se o bebê estivesse “apontando os dedos”. O calcanhar não encosta no chão e, sem tratamento, a criança teria dificuldade para caminhar com o pé completamente apoiado.

Além disso, o pezinho costuma ser rígido, ou seja, não se movimenta com facilidade — esse é um dos principais sinais que diferenciam o PTC de outras alterações.

Como funciona o tratamento?

O método de Ponseti: o padrão ouro

Atualmente, o tratamento mais eficaz e amplamente adotado no mundo é o método de Ponseti, desenvolvido pelo médico espanhol Dr. Ignacio Ponseti. Com ele, conseguimos corrigir a deformidade sem cirurgia agressiva, com alto índice de sucesso e pés funcionais.

O tratamento é dividido em três fases principais:

1. Fase do Gesso (corretiva)

Objetivo: corrigir, aos poucos, a posição do pé
Essa fase começa logo após o nascimento, idealmente ao final do primeiro mês de vida, quando os tecidos ainda estão bem maleáveis.

O que acontece?
O ortopedista realiza manipulações suaves e precisas no pezinho do bebê, posicionando-o progressivamente da maneira correta.

Em seguida, é colocado um gesso especial que vai desde a coxa até os dedinhos dos pés (gesso inguino-podálico), imobilizando o pé na nova posição.

Esse gesso é trocado semanalmente, sempre com nova manipulação, corrigindo pouco a pouco as deformidades.

Geralmente são feitas de 4 a 6 trocas de gesso, mas o número pode variar conforme a gravidade ou em casos associados a outras condições, como artrogripose ou mielomeningocele.

Tenotomia: um pequeno passo para um grande resultado

Após a última troca de gesso, pode ser necessário realizar um procedimento simples chamado tenotomia, que consiste em um pequeno corte no tendão de Aquiles, para permitir que o calcanhar encoste corretamente no chão (corrigindo o “equino”). O procedimento é rápido, seguro e praticamente indolor, feito com anestesia local; Pode ser realizado em consultório ou centro cirúrgico, com o bebê sedado; Logo após, o bebê costuma mamar normalmente e volta para casa no mesmo dia; Um último gesso é colocado, permanecendo por cerca de 3 semanas sem trocas.

Importante:

A adesão ao uso da órtese é fundamental para o sucesso do tratamento. A falta de uso é a principal causa de recidiva, ou seja, quando o pé volta a entortar. Os pais são verdadeiros parceiros nesta fase! Apoio, informação e constância fazem toda a diferença.

2. Fase da Órtese (manutenção)

Objetivo: manter os resultados alcançados e evitar recidiva
Com o pé já corrigido, iniciamos uma fase fundamental: o uso da órtese de abdução, que mantém o pé na posição correta e evita que volte a entortar.

Como é a órtese?

É composta por dois sapatinhos fixados a uma barra metálica.
Também conhecida como:
▪ Órtese de Ponseti
▪ Órtese de Dennis Brown
▪ Botinha de Pé Torto

Como deve ser usada?

Primeiros 3 meses: 23 horas por dia (retira-se apenas para banho e troca de roupas).
Após esse período: o uso é reduzido para 14 horas por dia, principalmente durante o sono.
O uso noturno deve continuar até, pelo menos, os 4 anos de idade.

3. Fase de Acompanhamento

Objetivo: acompanhar o crescimento e garantir bons resultados a longo prazo
Mesmo com o pé corrigido e com o uso da órtese, o acompanhamento com o ortopedista é essencial.

Como são feitas as consultas?

Inicialmente, consultas semanais durante o período do gesso.
Depois, durante o uso da órtese, os intervalos vão se tornando mais espaçados, de acordo com a adaptação e o desenvolvimento da criança.
O ortopedista avalia se o aparelho está sendo usado corretamente, ajusta se necessário, e monitora o crescimento do pé.

O sucesso do tratamento depende de um tripé: diagnóstico precoce, tratamento bem feito e acompanhamento contínuo.

Como funciona o acompanhamento comigo?

No meu consultório, cada bebê com Pé Torto Congênito recebe um plano de cuidado individualizado, baseado no método de Ponseti, reconhecido mundialmente como o padrão ouro no tratamento dessa condição.
Desde os primeiros dias de vida, realizo as manipulações com delicadeza e atenção, respeitando o tempo e o conforto de cada criança. Os pais participam de todas as etapas, entendem cada fase do tratamento e recebem orientações detalhadas para manter os resultados em casa, com segurança e tranquilidade.
Além disso, acompanho de perto a adaptação à órtese e o desenvolvimento motor do bebê ao longo dos meses e anos. O acompanhamento não termina após o gesso, seguimos juntos em um cuidado contínuo, com escuta ativa e orientações claras em cada consulta.

Acredito que um tratamento eficaz começa com acolhimento, escuta e parceria com a família. Por isso, faço questão de estar disponível para esclarecer dúvidas, apoiar e orientar em cada fase dessa jornada.

Se você acabou de receber o diagnóstico de Pé Torto Congênito para seu filho ou tem alguma suspeita, agende uma avaliação. Estou aqui para cuidar com carinho, responsabilidade e conhecimento.

Dúvidas Frequentes

Não! O bebê engatinha e anda no tempo certo. Durante o uso do gesso e da órtese em tempo integral, ele ainda não estará na fase de rolar ou andar. Depois, com o uso parcial da órtese, pode brincar, engatinhar e andar normalmente.

Sim! Pacientes tratados com o método de Ponseti geralmente têm pés funcionais, flexíveis e sem dor. Muitos atletas profissionais foram tratados com esse método na infância.

Sim, pode haver uma pequena diferença de tamanho entre os pés (em casos unilaterais), e a panturrilha pode ser um pouco mais fina. No entanto, isso não interfere na função nem na vida ativa da criança.

Recado para os pais:

Receber o diagnóstico de Pé Torto Congênito pode ser assustador para os pais, mas é importante saber que existe tratamento altamente eficaz, seguro e com ótimos resultados.

Com o método de Ponseti, a maioria das crianças consegue ter uma vida absolutamente normal, sem dores e sem limitações. O papel dos pais, com carinho, paciência e comprometimento, é essencial para o sucesso do tratamento, especialmente durante o uso da órtese.

Em caso de dúvidas, converse sempre com o ortopedista de confiança. Estar bem informado é o primeiro passo para cuidar com tranquilidade da saúde do seu bebê.